...as notícias do dia são a viagem de recriação (ou recreação) da rota do Titanic, o jantar que reproduz o menu da fatídica noite do naufrágio, a descida de James Cameron à sua carcaça e não sei que mais manobras de marketing em torno do dito caixão de luxo que se partiu ao meio e se afundou; em Abril de 1918, morria-se na Flandres, no maior desastre militar português de que há memória, a seguir a Alcácer Quibir. Mas disso ninguém fala.
"O Morteiro", paródia a "Lágrima" de Guerra Junqueiro, incluído no Relatório de combate de 9 a 12 de Abril de 1918- Lembranças, caderno manuscrito por Raul Pereira de Araújo, alferes de Artilharia, sobrevivente da Batalha de La Lys. Tirado daqui.
Noite de frio intenso, uma trincha escavada
Lúgubre, sepulcral, agoirenta... e mais nada
Trincheira onde a morte apanha vis pancadas
Em banquetes de sangue arrancado em ciladas
Na trincha oposta, onde o boche reina e impera
Em rasgos e expansões de forte besta-fera
Um oficial audaz, olho do batalhão
Descobriu dum morteiro grosso, a posição
Maquinismo feroz que se cumpre o dever
Ao perto e ao longe tudo faz estremecer.
Eis que passa um general com seu estado-maior
Tenentes, capitães e creio que um major
E ao saber que existia ali a posição
Caiu sobre os joelhos e disse: - Perdão!
Consente-me que passe; sabes que é preciso
Dar exemplo ao soldado, fingir o sorriso
Para que elle veja em mim virtude, um nobre exemplo
De guerreiro d' outrora. Mas eu te contemplo
Com o maior respeito; nunca te fiz mal.
É certo que por vezes do Quartel-General
Em notas irritantes cheias de iniquidade
Ordeno muito tino, muita actividade
Mas nada mais; já vês portanto que o meu crime
É bem banal e encerra apenas, elle exprime
A pretensão sabuja de mostrar tesura
Que não tenho, confesso. Mas a morte é dura
E eu não quero morrer; por isso tem paciência
Esparge sobre mim um pouco de clemência
Que a minha cobardia, com respeito e agrado
Te dirá sempre: mil vezes muito obrigado.
E o morteiro feroz com seu enorme bôjo...
Sorriu... tremeu de raiva... e cuspiu com nôjo.
Passa depois o chefe de certa brigada
Muito pressuroso e prôa alevantada
E ao conhecer a história do grosso morteiro
Deixou de ser um chefe... para ser sendeiro
Titubiou, vacilou, perturbou-se e caiu
Depois de um silêncio enorme quando sentiu
Reanimar-se, disse assim: - Morteiro amigo!
Eu tenho em Portugal, velho solar antigo
Cheio de raridades ao mais alto preço!
Pois bem, deixa-me passar, eis o que te peço,
Dez minutos somente de tréguas na guerra
E prometo-te levar-te para a minha terra.
Para no meu solar servires de ornamento
Em rico salão nobre e cheio de espavento
E se um dia morrer, hei-de deixar escrito
Que tu foste a mais nobre arma deste conflito
E assim atestarás depois à eternidade
Como nós espalhamos a - Fraternidade!
E o morteiro feroz com o seu norme bôjo
Sorriu... tremeu de raiva... e cuspiu com nôjo.
Aproximou-se então um cachapim tonante
Com ar superior, nojento, revoltante
Imensas ordenanças quaes tristes jumentos
Carregam com mil mapas e regulamentos
Mas ao saber ali da triste aparição
Ficou desnorteado e gaguejou então:
Com a minha inteligência eu posso num momento
O kaiser derrubar e o próprio firmamento!
Com um papel e um lápis, arte, génio e manha
Eu faço derruir num ápice a Alemanha!
Olhando bem para mim, assim de frente a frente
Vê-se logo que eu tenho um cérebro potente!
E para corroborar tudo isto afinal
Olhai-me bem e vêde as palmas e o braçal.
Pois palmas e braçal tudo isto eu dou, morteiro!
Se prometeres deixar-me o meu corpinho inteiro
E eu dou-te mais ainda planos de extermínio
Para espalhares a dôr, a dôr e o teu domínio
E se não estás contente ainda, paciência,
Só posso dar-te mais e minha inteligência
E assim poderás tu encher a tua pança
À custa de mil bifes e da própria França.
E o morteiro feroz, com seu enorme bôjo
Sorriu... tremeu de raiva... e cuspiu de nôjo.
De súbito um alferes que tudo tinha visto
Assoma na trincheira como um imprevisto
Vem nervoso, colérico, d'olhos em braza,
O seu olhar crepita, fere, mata, abraza
E meditando assim em tanta vilania
Que por ali passava em todo aquelle dia
Estremece febril; e como um furacão
Dirige-se para a linha todo em convulsão
E quando chega ali, subindo ao parapeito
Assim fala ao morteiro descobrindo o peito:
- Que pena a minha Pátria, terra de brazões,
Agasalhar em si canalhas e poltrões!
Nunca julguei em terra de heróis e guerreiros
Pudesse haver assim tamanhos embusteiros!
Nunca, jamais, em tempo algum sequer um dia
Pensei de Portugal em tanta covardia
Nunca julguei que em campo de heroes e façanhas
Pudessem aparecer sabujices tamanhas!
Que nunca ninguém saiba os crimes deste dia
Que eu não quero viver em tanta porcaria
Por isso, ó morteiro te peço bem do fundo
Dispara um tiro só, leva-me do mundo
E o morteiro bojudo, o morteiro audaz
Expediu um pesado... e matou o rapaz.
